Neste domingo, celebramos a festa da Exaltação da Santa Cruz, um símbolo não de derrota, mas de vitória para nós, cristãos, e é exatamente essa cruz que muito nos tem a ensinar. Certa vez, ouvi uma canção tradicional da cidade de Juazeiro do Norte, Ceará, terra do Pe. Cícero Romão, canção esta cantada pelos romeiros nas diversas romarias que acontecem ao longo do ano, intitulada: Nossa Senhora me Chama. Ao ouvir essa canção, deparei-me com algumas partes da letra que serviram de pano de fundo para a meditação deste texto. Convido você leitor antes de continuar a leitura ouvir essa canção. Essa música traz verdadeiros ensinamentos para a vivência cristã, que aqui, neste pequeno texto, tomo a liberdade de chamar de a Pedagogia da Cruz. Ao recorrermos ao bom e velho dicionário Aurélio, iremos encontrar, na segunda definição do que significa “pedagogia”: “Conjunto de doutrinas, princípios e métodos de educação e instrução que tendem a um objetivo prático” (FERREIRA, 1999, p. 1062).
A primeira instrução que a Cruz nos ensina é o Amor. Jesus nos amou na Cruz de forma profundíssima. Um amor que chamaria de amor compassivo e misericordioso; no alto da cruz, Ele exclama: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34). Jesus, na Cruz, pede ao Pai que perdoe aqueles algozes que cometiam a crueldade de lhe crucificarem. Quanta falta nos fazem gestos de amor e caridade na sociedade contemporânea, que está mergulhada em um oceano de intolerância e falta de caridade e zelo pelo próximo. Há um afastamento entre amor e caridade no homem contemporâneo, onde o amor, por muitas vezes, se resume a um sentimentalismo momentâneo e banal de rede social. O Papa Bento XVI, na sua encíclica “Deus Caritas Est” (Deus é Amor), afirma algo que vai de comum acordo com o que acabamos de pontuar acima: “O termo ‘amor’ tornou-se hoje uma das palavras mais usada e mesmo abusada, à qual associamos significados completamente diferentes” (BENTO XVI, Papa. Deus Caritas Est, n. 2. 2006). Amar é doar-se, e essa doação se transforma em caridade, se transforma em compreensão pelo outro, que muitas vezes pensa diferente de mim, mas o seu pensar diferente não tira de mim o dever de amá-lo. Portanto, a Cruz nos ensina a amar com um amor generoso e caridoso.
Jesus rezou na Cruz! Aqui está o segundo ensinamento da Cruz: rezar. “E Jesus clamou com voz forte: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’” (Lc 23,46). Jesus clama ao Pai no momento mais agonizante, nos últimos segundos, como afirma São Lucas, antes de entregar o Espírito. Esse clamar ao Pai é uma oração. Na hora da dor e da agonia, Jesus se une ao Pai, se lança e confia. Há poucos dias, em sua catequese semanal, o Santo Padre Leão XIV disse: “Jesus não morre em silêncio. Ele não se apaga lentamente, como uma luz que se consome, mas deixa sua vida com um grito… Esse grito abrange tudo: dor, abandono, fé e oferenda.” (LEÃO XIV, 2025). Na hora de alguma dor ou agonia, ficamos tão alucinados para solucionar logo aquela questão que também esquecemos de rezar, ou seja, clamar pelo Pai. Ou então podemos cair no risco de pensarmos que de nada adianta a oração, e que estamos sozinhos. Ao nos entregarmos ao Pai, nunca estamos sozinhos; a oração é uma entrega é um elo que nos une e nos aproxima de Deus. Gosto de pensar a oração como um diálogo puro entre uma criança e o seu pai, e muitas vezes essa criança pode trazer consigo muitas dores e feridas, mas ao se entregar ao pai, ele cuida e dá carinho. Em sua primeira Via-Sacra como Sumo Pontífice, o Papa Francisco recordava, ao meditar esse texto, que: “Do alto da cruz ouve-se um grito: um grito de abandono no momento da morte, um grito de confiança no meio do sofrimento.” (FRANCISCO, Papa, 2013). Portanto, a Cruz nos ensina a rezar; a oração nos leva a confiar em Deus, que zela e cuida de nós.
A Cruz nos ensina o gesto do perdão. Retornemos mais uma vez ao Evangelho de Lucas: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34). A profundidade do gesto de Cristo em perdoar aqueles que lhe tiravam a própria vida é de uma profundidade imensurável. Imaginemos a tamanha dor que Cristo sofria; num pensamento meramente humano, Ele poderia estar ali amaldiçoando aqueles que lhe matavam, mas, em vez disso, Ele perdoa. Para entendermos isso, recorro à célebre obra “A Vida de Cristo”, do bispo estadunidense Fulton Sheen: “Os executores esperavam que Ele gritasse, pois todos os pregados ao lenho da cruz o fizeram anteriormente… Cícero recordou que, às vezes, era necessário cortar a língua dos que eram crucificados para que cessassem suas terríveis blasfêmias.” (SHEEN, 2021, p. 170. V.II). Cristo crucificado na cruz usa da sua língua, para perdoar.
Hoje, observamos ao nosso redor quantas famílias divididas por conta da falta de perdão, quantas amizades que se destruíram pela falta de perdão. É fato que vivemos em uma sociedade polarizada, mas vejo com preocupação cristãos que não conseguem se perdoar por pensarem ideologicamente, politicamente de formas distintas. Penso que talvez seja até desigual comparar esses pontos apresentados ao que Cristo sofre no alto da Cruz. E lá está Ele, perdoando! Aqui está o fato de o último ensinamento ser o perdão: ninguém consegue perdoar se não tiver amor; ninguém consegue perdoar se não estiver unido ao Pai em oração. Certamente, se soubéssemos perdoar mais, a exemplo de Cristo, o mundo seria diferente. Portanto, que comecemos a aprender a perdoar, a semear a semente do perdão.
Assimilando essa que eu chamo de pedagogia da Cruz, somos chamados para uma vida nova, uma vida que nasce na Cruz. A Cruz é, para nós, a árvore da vida; que possamos, com amor, oração e perdão, ressurgir para uma vida nova. Uma vida cristocêntrica, com a centralidade de Cristo no nosso cotidiano, no trato para com o meu próximo. Não é tão simples conseguir assimilar esses ensinamentos, mas podemos contar com uma ajuda preciosa da Virgem Mãe das Dores, que celebramos um dia após a Exaltação da Santa Cruz. Ela esteve firme aos pés da Cruz, ela esteve ali guardando; que possamos, com seu exemplo e pela sua intercessão, aprender a guardar os ensinamentos da Cruz, que são os ensinamentos do próprio Jesus.
Diego Balduíno Barreira de Souza Costa é seminarista da Diocese de Porto Nacional, Tocantins. Cursou filosofia no instituto Maria Mater Ecclesiae, em Itapecerica da Serra, São Paulo. Obteve o título de bacharel em filosofia pelo Ateneu Pontifício Regina Apostolorum de Roma. Atualmente cursa Teologia no Instituto São José em Mariana, Minas Gerais.