Viu e acreditou

Terça feira do terceiro dia da Oitava do Natal. Festa de São João Evangelista, aquele apóstolo que Jesus amava. João, cujo significado de seu nome que dizer “Deus é misericórdia”. Tudo a ver com a pessoa deste grande homem de Deus que soube seguir os passos de seu Mestre sem titubear. Um simples pescador, assim como Pedro e André, ocupando um lugar de destaque no discipulado de Jesus. Alguém que tinha uma predileção especial de seu Mestre Galileu. Aquele que “viu e acreditou” (Jo 20, 8), mesmo que no versículo posterior, e que não aprece no texto da liturgia de hoje, Jesus tenha dito: “Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem ter visto.” (Jo 20,29)

Estou longe de casa, mais precisamente na cidade de Barra do Garças/MT, divisa como estado de Goiás, a caminho das Minas Gerais, berço do meu nascimento. Apesar de já estar no Araguaia há 30 anos, meu lado mineiro fala mais alto em mim. Sou feliz no Araguaia, mas voltar a ver e conviver com os meus irmãos, depois de cinco anos, é uma forma de beber da própria fonte, recobrar as forças para retomar o trabalho mais rejuvenescido e animado. Como me disse um cacique antes de partir: “Vã, mas não se esqueça de voltar. Seu lugar é aqui e nós precisamos de você aqui. Os nossos ancestrais vão contigo, mas eles vão te trazer de volta.” A causa indígena é a minha causa maior e uma das razões do meu viver, disse-lhe.

Festa de São João e festa também do Padre Júlio Renato Lancellotti com os seus 74 anos de vida. Nascido no pós guerra (1948), exerce a sua função sacerdotal à frente da paróquia de São Miguel Arcanjo no bairro da Mooca, na cidade de São Paulo. Além de pároco, ele também tem um trabalho belíssimo com a sua equipe, exercendo a função precípua de “cuidar” dos irmãos e irmãs de rua na Pastoral do Povo da Rua. Amado por estes e odiado por uma parte dos moradores de São Paulo, pelo fato deste “Anjo da Rua”, defender os direitos das pessoas em situação de rua. Como ele mesmo costuma dizer: “defender os pobres, oprimidos e marginalizados é seguir Jesus!”. Embora alguns cristãos não veem com muita simpatia, o mineiro Chico Xavier com uma de suas frases resumia bem este contexto das pessoas em situação de rua. Dizia ele: “Tudo aquilo que está sobrando na sua casa, está fazendo falta para alguém”.

O Apóstolo João, diante de um cenário catastrófico da morte de seu Mestre, viu e acreditou que Jesus estava vivo. Sua não presença ali no túmulo vazio dava-lhe conta que Deus o havia Ressuscitado. A morte não tinha a última palavra, pois a vida em Deus fizera triunfar Jesus, vivo para a nossa alegria. Este é o grau de fé e seguimento deste homem de Deus. Seguir a Jesus é mais do que ver e acreditar. É preciso estar disposto a fazer aquilo que Jesus fazia. Estar com Jesus e fazer parte do seu discipulado requer, mais do que boas intenções. É Fazer da própria vida um jeito de caminhar com Ele por onde Ele mesmo iria passar: “O Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos, e os enviou dois a dois, na sua frente, para toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir.” (Lc 10,1) Discípulos responsáveis para anunciarem a Boa Notícia no caminho e começarem a realizar os atos que concretizam o Reino.

Estamos vivenciando o pós-Natal. Jesus já está no meio de nós. Festejamos, celebramos, convivemos com os nossos, mas nunca devemos nos esquecer que a vida continua e Ele quer ser presença viva no meio de nós. Não como um ser distante e fora da nossa realidade histórica. Ele é conosco. O Deus conosco é um de nós! Gente como a gente! O Verbo se fez gente! Saiu do colo de Deus e se fez presença viva em nossa história. Ele também nos revelou O Pai amoroso que não está nas alturas, longe e distante, mas caminhando conosco em nossa história no dia a dia. A amorosidade do Pai pelo Filho se fez ternura e compaixão para conosco. O mistério da encarnação do Verbo foi desvendado no ventre de Maria: Jesus está conosco hoje e sempre!

Apesar do clima ainda do nascimento de uma frágil criança no berço da periferia do mundo, a liturgia nos traz o contexto da Ressurreição de Jesus como ponto de partida e chegada da nossa fé. Como nos diria o também apóstolo Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também é vazia a fé que vocês têm.” (1 Cor 15,14) . O que precisa ficar claro para nós é que a fé na Ressurreição tem dois aspectos. O primeiro é negativo: Jesus não está morto. Ele não é falecido ilustre, ao qual se deve construir um monumento. Desta forma, quando a liturgia nos mostra o texto do sepulcro vazio, quer dizer que Jesus não ficou prisioneiro da morte. O segundo aspecto da ressurreição é positivo: Jesus está vivo, e o discípulo que o ama intui essa realidade acreditando, mesmo não tendo visto a presença dele ali. Quem ama sente e vive aquilo que acredita.

 


Francisco Carlos Machado Alves conhecido como Chico Machado, foi da Congregação do Santíssimo Redentor, os Redentorista, da província de São Paulo. Reside em São Felix do Araguaia no Mato Grosso e é agente de Pastoral na Prelazia de São Felix desde 1992. Sua atividade pastoral é junto aos povos indígenas da região: Xavante, Kayabi, Karajá, dentre outros. Mestre em Educação atua na formação continuada de professores Indígenas, nas escolas das respectivas aldeias.